Há muito tempo se tem discutido acerca  da amplitude  da aplicabilidade da norma isentiva prevista na Lei nº 7.713/1988, que em seu artigo  XIV dispõe que os proventos de aposentadoria ou reforma motivada por acidente em serviço e os percebidos pelos portadores de moléstia profissional, tuberculose ativa, alienação mental, esclerose múltipla, neoplasia maligna, cegueira, hanseníase, paralisia irreversível e incapacitante, cardiopatia grave, doença de Parkinson, espondiloartrose anquilosante, nefropatia grave, hepatopatia grave, estados avançados da doença de Paget (osteíte deformante), contaminação por radiação, síndrome da imunodeficiência adquirida, com base em conclusão da medicina especializada, mesmo que a doença tenha sido contraída depois da aposentadoria ou reforma ,tem isenção no imposto de renda da pessoa física.

Analisando a legislação é possível verificar que somente os rendimentos de aposentaria ou reforma são passiveis de isenção no imposto de renda, ou seja, a referida isenção não englobaria os rendimentos salariais do portador de moléstia grave.

A jurisprudência majoritária dos Tribunais Federais tem adotado a interpretação literal da lei, ou seja, somente os rendimentos de aposentadoria teriam o direito a aludida isenção, com exceção de algumas turmas do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, que tem compreendido que a isenção de imposto de renda de portadores das moléstias listadas na Lei nº 7.713/1988 englobaria também os rendimentos salariais, e não somente os proventos de aposentadoria.

Entretanto a 1ª Seção Superior Tribunal de Justiça visando pôr fim a esta dualidade de entendimentos, afetou dois recursos especiais, quer sejam: 1836091 e 1814919, para definir, sob o rito dos recursos repetitivos, a “incidência ou não da isenção do Imposto de Renda prevista no inciso XIV do artigo 6º da Lei 7.713/1998 sobre os rendimentos de portador de moléstia grave que se encontra no exercício de sua atividade laboral”.

E, no dia 24/06/2020 a Seção, por maioria, deu provimento ao Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional. De acordo com a maioria do colegiado há incidência do IRPF sobre os rendimentos de portador de moléstia grave que se encontra no exercício de sua atividade laboral, haja vista que a legislação menciona expressamente a isenção em face de proventos de “aposentadoria”, “reforma” e “pensão”, o que não abrange rendimentos provenientes de salário.

Sendo assim, o contribuinte que se encontra em pleno exercício das funções inerentes ao cargo que ocupa, as normas acima não a alcançam, na medida em que a isenção de imposto de renda outorgada a portadores de moléstia grave somente se refere a aposentados e pensionistas.

De acordo com o julgado, a previsão legal tem redação clara quanto à extensão da isenção apenas a “proventos de aposentadoria ou’ reforma” ou “pensão”, não admitindo interpretação que pretenda incluir, no benefício isentivo, rendimentos da atividade, não havendo princípio constitucional que ampare a pretensão do contribuinte de emprestar interpretação extensiva à norma isentiva, sob pena de o Poder Judiciário atuar como legislador positivo.

Concluindo que a equiparação entre os ativos e inativos para fins de concessão de isenção do IRPF, equivaleria a verdadeira criação de regra isentiva não prevista em lei, contrariando o art. 176 do CTN, bem como a matéria em questão não admite interpretação ampliativa, conforme previsão do art. 111, inciso II, do CTN.

Entretanto descordo da posição majoritária da 1ª Seção Superior Tribunal de Justiça, o julgador deve considerar não só a regra escrita e previamente estabelecida pela autoridade regradora, que, vale lembrar, é abstrata e geral, mas avaliar os princípios, os valores jurídicos, a finalidade da regra e a situação história, ética e política que levaram à sua edição, a fim de encontrar a solução de justiça que se procura e realmente se deseja.

Faço das minhas as palavras contidas no julgado do TRF 1ª Região “Muito embora o art. 111 do CTN estabelece que o intérprete deve orientar-se pela literalidade da norma que disponha a isenção, não é possível admitir que prevaleça o pensamento redutor da justiça à lei escrita e ao seu cumprimento fiel ou literal, vedando ao intérprete do Direito qualquer margem de discricionariedade ou mesmo elasticidade na aplicação do conteúdo da regra escrita, isso impediria a evolução do pensamento judicial, obstaria que o benefício isencional fosse aplicado a casos semelhantes, ainda que não absolutamente idênticos, o que afrontaria os princípios, as garantias e os direitos fundamentais, em especial o da isonomia e da dignidade da pessoa humana, que devem reger todo o ordenamento jurídico, inclusive o tributário.”

A isenção, ao meu ver, deveria alcançar todos aqueles portadores de doença grave elencada na lei 7.713/88, devendo ser tratados igualmente os inativos e os ainda em atividade, caso contrário, várias ofensas estarão sendo perpetradas: primeiramente ofendendo o princípio jurídico da dignidade humana, bem como os princípios da isonomia, do direito fundamental a saúde bem como o direito ao trabalho. 

Muito embora divirja do acordão da 1ª Seção do Superior Tribunal de Justiça, julgado sob o tema de recurso repetitivo, tal entendimento deverá ser seguido pelo tribunais federais de todo pais. 

José Wellington Omena Ferreira – OAB/DF 28.613 – Nascido em Brasília/DF, formado em Direito pelo Centro Universitário de Brasília – UNICEUB, Pós-graduando em Direito Tributário pelo Instituto Brasileiro de Estudos Tributários – IBET, membro da Comissão de Assuntos Tributários da OAB/DF.